
Zumbis sem entraves
Desde a alucinante sequência de abertura, com dezenas de mortos-vivos babando sangue e sendo massacrados das mais diversas maneiras, temos certeza não somente de estarmos diante de uma comédia paródica qualquer (como muitas feitas recentemente, zombando da “seriedade” dos zumbis), mas de uma forma de humor um tanto particular.
Mais algumas cenas e esta impressão se acentua: num mundo devastado onde raríssimos são os sobreviventes ainda humanos, um garoto vaga pelas rodovias desertas atrás de comida, ou simplesmente de mudanças (interessante o fato de todo filme catástrofe se concentrar nas estradas, como se o fluxo de carros fosse o melhor símbolo do bom funcionamento social). Começamos neste mundo já destruído, sem grandes explicações sobre como ele atingiu este estado.
Elimina-se então o peso da catástrofe mundial, a seriedade das ameaças de apocalipse. Nosso universo fílmico parece ter sempre sido este deserto povoado por zumbis, um mundo sem memória. Assim, o grande desejo de restituição da ordem social não existe em nossos protagonistas (que são majoritariamente adolescentes), nem o desejo incontrolável de encontrar a família, algo típico de gênero. Quando o garoto que pensava procurar seus pais cruza uma garota atraente, ele abandona sua busca e segue com ela.
Sem qualquer importância atribuída à família, à religião, às classes sociais e todas as outras estratificações sociais que parecem saltar aos olhos em momentos de crise, resta então a dura luta pela sobrevivência, certo? Errado. Num país de zumbis particularmente lentos e pouco inteligentes, qualquer criança ou adolescente com um bastão de baseball sobrevive sem problemas. Trata-se de uma incoerência fundamental, claro (por que então diversos adultos não teriam sobrevivido e eliminado os primeiros zumbis desde o início?), mas plenamente assumida pela história.
Sobra então a dura busca por alimentos, por uma casa, um carro? Nada disso. Os supermercados estão fartos e disponíveis, os carros estão todos parados em frente às casas, com a chave dentro e o tanque de combustível abastecido. O grande estranhamento deste Zombieland (aparentemente “Zumbilândia” em português) é o apagamento de todos os conflitos normais em situação de caos: nossos personagens não estão condenados a lutar pela sobrevivência, mas a lutar contra o tédio. Com estes zumbis vagando pelos cantos, e com poucos humanos, como se divertir?
A lógica hedonista substitui a sobrevivência, a diversão individual prima sobre a solidariedade social. O único protagonista adulto da história pode ter perdido seu filho, transformado em zumbi, mas ele pouco pensa no garoto e passa todo o filme procurando uma marca de doces que o agrada. O caos coletivo é levado ao individualismo máximo, ao desprezo total pela noção de comunidade.
Assim, sem entraves, nossos personagens brincam com os elementos disponíveis: no caso, boa parte deste filme se concentra num dinâmico massacre de zumbis, às pencas, com direito à competições (quem mata mais, quem cria a morte mais original) e ao inevitável clímax num parque de diversões. Afinal, tudo se resume a este grande parque, ao seu patético “castelo dos horrores” que não é mais do que a metáfora do próprio filme: como num videogame, os zumbis existem apenas para o nosso prazer, são monstros feitos para serem mortos, sem personalidade ou história. O mundo se torna cenário de jogo, os humanos viram alvos despersonalizados. Matar é divertido e faz passar o tempo, matemos então.
Zombieland (2009)
Filme norte-americano dirigido por Ruben Fleischer.
Com Jesse Eisenberg, Woody Harrelson, Abigail Breslin, Emma Stone, Bill Murray.
Desde a alucinante sequência de abertura, com dezenas de mortos-vivos babando sangue e sendo massacrados das mais diversas maneiras, temos certeza não somente de estarmos diante de uma comédia paródica qualquer (como muitas feitas recentemente, zombando da “seriedade” dos zumbis), mas de uma forma de humor um tanto particular.
Mais algumas cenas e esta impressão se acentua: num mundo devastado onde raríssimos são os sobreviventes ainda humanos, um garoto vaga pelas rodovias desertas atrás de comida, ou simplesmente de mudanças (interessante o fato de todo filme catástrofe se concentrar nas estradas, como se o fluxo de carros fosse o melhor símbolo do bom funcionamento social). Começamos neste mundo já destruído, sem grandes explicações sobre como ele atingiu este estado.
Elimina-se então o peso da catástrofe mundial, a seriedade das ameaças de apocalipse. Nosso universo fílmico parece ter sempre sido este deserto povoado por zumbis, um mundo sem memória. Assim, o grande desejo de restituição da ordem social não existe em nossos protagonistas (que são majoritariamente adolescentes), nem o desejo incontrolável de encontrar a família, algo típico de gênero. Quando o garoto que pensava procurar seus pais cruza uma garota atraente, ele abandona sua busca e segue com ela.
Sem qualquer importância atribuída à família, à religião, às classes sociais e todas as outras estratificações sociais que parecem saltar aos olhos em momentos de crise, resta então a dura luta pela sobrevivência, certo? Errado. Num país de zumbis particularmente lentos e pouco inteligentes, qualquer criança ou adolescente com um bastão de baseball sobrevive sem problemas. Trata-se de uma incoerência fundamental, claro (por que então diversos adultos não teriam sobrevivido e eliminado os primeiros zumbis desde o início?), mas plenamente assumida pela história.
Sobra então a dura busca por alimentos, por uma casa, um carro? Nada disso. Os supermercados estão fartos e disponíveis, os carros estão todos parados em frente às casas, com a chave dentro e o tanque de combustível abastecido. O grande estranhamento deste Zombieland (aparentemente “Zumbilândia” em português) é o apagamento de todos os conflitos normais em situação de caos: nossos personagens não estão condenados a lutar pela sobrevivência, mas a lutar contra o tédio. Com estes zumbis vagando pelos cantos, e com poucos humanos, como se divertir?
A lógica hedonista substitui a sobrevivência, a diversão individual prima sobre a solidariedade social. O único protagonista adulto da história pode ter perdido seu filho, transformado em zumbi, mas ele pouco pensa no garoto e passa todo o filme procurando uma marca de doces que o agrada. O caos coletivo é levado ao individualismo máximo, ao desprezo total pela noção de comunidade.
Assim, sem entraves, nossos personagens brincam com os elementos disponíveis: no caso, boa parte deste filme se concentra num dinâmico massacre de zumbis, às pencas, com direito à competições (quem mata mais, quem cria a morte mais original) e ao inevitável clímax num parque de diversões. Afinal, tudo se resume a este grande parque, ao seu patético “castelo dos horrores” que não é mais do que a metáfora do próprio filme: como num videogame, os zumbis existem apenas para o nosso prazer, são monstros feitos para serem mortos, sem personalidade ou história. O mundo se torna cenário de jogo, os humanos viram alvos despersonalizados. Matar é divertido e faz passar o tempo, matemos então.
Zombieland (2009)
Filme norte-americano dirigido por Ruben Fleischer.
Com Jesse Eisenberg, Woody Harrelson, Abigail Breslin, Emma Stone, Bill Murray.














